História do Tratamento com Canábis

Perspectiva Histórica

A Canábis é utilizada pelo Homem para fins medicinais há milénios, sendo uma das mais antigas colheitas agrícolas da Humanidade. Os primeiros registos escritos sobre a utilização da Canábis datam do 6º Século a.C.. Existem evidências de ter sido utilizada já desde o Holoceno – 8.000 a.C.. Na Medicina Tradicional Chinesa a Canábis é utilizada desde há milénios, tal como na Índia. A Canábis foi também utilizada na Grécia Antiga como tratamento para diversas enfermidades.

A Canábis, na década de 70 do Século XX, foi colocada no Escalão I das drogas ao lado da Heroína, ou seja: perigosa com potencial aditivo e sem utilidade clínica. Esta proibição foi impulsionada pelos EUA, país no qual também se deu o renascimento em massa da Canábis Medicinal. Neste momento a maior parte dos estados nos E.U.A. (cerca de 28) já utilizam de forma regular a Canábis como tratamento para diversas patologias. Alias, neste país, a Canábis é já utilizada há cerca de duas décadas como tratamento médico, assim como em Israel. A Canábis, apesar de poder alterar o estado de consciência, é uma substância muito segura não se conhecendo até à data alguma morte por sobre-dosagem. O potencial aditivo, no contexto terapêutico, é inferior ao de muitos medicamentos comercializados há décadas, com destaque para as Benzodiazepinas e os Opiáceos.

Até meados do Século XX os compostos presentes na Canábis eram ainda desconhecidos, apesar da morfina e da cocaína terem sido isoladas no final do Século XIX a partir da papoila do ópio e das folhas da coca, respectivamente. Isto aconteceu não só pela proibição da planta como também pelo receio dos cientistas de verem a sua reputação associada à investigação da Canábis. Desta forma, caímos na obscuridade até que em 1963 em Israel o Dr. Raphael Mechoulam estudou as substâncias fitoactivas presentes na Canábis e descobriu o Δ9-THC (Tetrahidrocanabinol) e o CBD (Canabidiol). Descobriu ainda um vasto leque de outras substâncias produzidas em menor quantidade. Ainda hoje Israel é um dos países com maior utilização médica da Canábis onde cerca de 20.000 doentes têm licença para utilizar esta substância em doenças como: Glaucoma, Doença de Crohn, inflamação crónica, perda de apetite, Asma e Síndrome de Tourette. Foi ainda este autor israelita que em 1992 isolou no corpo humano uma substância endógena que se liga aos mesmos receptores que o Δ9-THC. Mechoulam chamou a esta substância Anandamida, que no sânscrito quer dizer felicidade suprema; e descobriu que esta tem um papel fundamental na memória, no equilíbrio, no movimento, no sistema imunitário e na neuroprotecção. Foi assim descoberto um novo Sistema de Neurotransmissão Cerebral – o Sistema Endocanabinóide.

Hoje sabe-se que o Sistema Endocanabinóide estudado por Mechoulam é constituído por dois canabinoides endógenos – Anandamida e 2-arachidonoylglycerol que têm afinidade especifica para dois receptores designados por CB1 e CB2.  Os receptores CB1 encontram-se predominantemente no Sistema Nervoso Central e os CB2 encontram-se principalmente nas células do Sistema Imunitário e do Sistema Hematopoiético.

Em 1996, na Califórnia (EUA), a Canábis Medicinal foi legalizada após um referendo sendo assim a primeira região no Hemisfério Ocidental a legalizar o uso da Canábis na Medicina. Desta forma há já cerca de duas décadas de experiência no uso da Canábis no tratamento sintomático de diversas doenças, reforçando assim a evidência de segurança e eficácia. Alias, o uso de Canábis na Medicina está a aumentar rapidamente em todo o mundo.

Sabe-se hoje que a planta da Canábis produz diversas substâncias fitoactivas entre as quais se encontram o Δ9-THC e o CBD. Estes são os compostos mais utilizados até agora no tratamento com Canábis.

A Canábis é utilizada em todo o mundo dos EUA à Alemanha e Israel no controlo de sintomas de doenças como:

* Fibromialgia – reduz a dor

* Dor Neuropática

* Dor Crónica

* Tratamento com Quimioterapia  – estimula o apetite e reduz as náuseas

* Epilepsia – reduz as convulsões principalmente em certos tipos de Epilepsia Infantil

* Glaucoma – reduz a pressão intra-ocular

* Esclerose Múltipla– reduz a espasticidade / rigidez muscular e a dor

* Infecção por HIV/SIDA – estimula o apetite

* Insónia (desencadeada por diversas causas)

* Ansiedade

* Doença de Crohn

* Asma

* Síndrome de Tourette

* Stress-Post Traumático

O CBD é uma substância com propriedades sedativas. Não têm efeito psicotrópico podendo apenas causar sonolência. Assim é muito útil na insónia. Talvez seja o Canabinóide com maior potencial terapêutico dado o seu largo espectro de acção, baixa toxicidade e ausência de efeito psicotrópico.

O Δ9-THC é a substância associada ao uso recreativo da Cannabis. Altera o estado de consciência e causa euforia. Hoje em dia muitos derivados da Cannabis contêm uma dose muito baixa deste componente (ou apenas vestígios) justamente para evitar o efeito psicotrópico. O THC deve ser utilizado com a devida cautela e em conjunto com o CBD, uma vez que usados juntos aumentam o efeito terapêutico da Cannabis no seu todo. Contudo, dado o risco de efeitos secundários do foro psiquiátrico, esta substância (Δ9-THC) deve ser evitada pois a segurança é mais reduzida.