CBD e THC

A planta Canábis spp. produz várias substâncias fitoactivas das quais há duas que são as mais relevantes – o CBD e o Δ9-THC.

CBD

CBD Molecular Structure

O CBD é uma substância com propriedades sedativas. Não tem efeito psicotrópico podendo apenas causar sonolência. Assim é muito útil na insónia. Talvez seja o Canabinóide com maior potencial terapêutico dado o seu largo espectro de acção, baixa toxicidade e ausência de efeito psicotrópico.

O CBD oferece um elevado potencial terapêutico como descrito mais á frente e não tem os mesmos efeitos potencialmente perigosos do Δ9-THC. O CBD não apresenta efeito psicotrópico e é muito seguro em sobredosagem. Não apresenta potencial de abuso ou dependência. 

Efeitos Fisiológicos do CBD

O Canabidiol foi o primeiro canabinóide a ser isolado a partir do óleo de Canabis em 1940 (Adams et al.,1940a) mas a sua estrutura química só foi revelada em 1963 por Mechoulam (Mechoulam and Shvo,1963). 

O CBD encontra-se desprovido das propriedades intoxicantes do Δ9-THC e considera-se não psicoactivo. Este facto deve-se ao CBD ter uma afinidade muito baixa para os receptores CB1 e CB2 (Thomas et al., 2007) (Bisogno et al. 2001B ), mas modula o receptor CB1 através de um mecanismo alostérico (Laprairie et al., 2015). 

Assim e ao contrário do  Δ9-THC, o Canabidiol não activa os receptores CB1 e CB2 o que contribui para a ausência de psicoactividade desta substância. 

O CBD exerce uma modulação alostérica do receptor CB1, ligando-se a um local distinto do sítio onde ocorre a ligação com os agonistas ou agonistas parciais (ex: Δ9-THC). Sabe-se ainda que o CBD tem um efeito agonista ligeiro nos receptores 5-HT1A da Serotonina (Russo et al., 2005) 

O Canabidiol é um potente agente antioxidante e anti-inflamatório e pode ter um efeito neuroprotector em casos de neurodegeneração aguda ou crónica. (Hampson et al. 1998 ; Lastres-Becker et al. 2005 ).

A administração oral de Canabidiol sofre um extenso efeito de primeira passagem hepática pelo que a biodisponibilidade é de apenas 6 % após administração oral ou sublingual.

Utilização Clínica

Os vários estudos realizados com CBD e a experiência clínica da sua utilização demonstram o seu efeito: 

Anti-inflamatório

– Hipnótico

– Anticonvulsivante

– Antiemético – útil na quimioterapia

– Analgésico

– Ansiolítico

– reduz espasmos musculares na Esclerose Múltipla

O efeito do Canabidiol (CBD) na Epilepsia Infantil é bem conhecido nos Estados Unidos da América e é utilizado com regularidade em casos refractários ao tratamento tradicional ( Hofmann and Frazier, 2013; Jones et al., 2010). 

Vários estudos demonstram potencial efeito terapêutico na Ansiedade (Bergamaschi et al., 2011), Doenças do Movimento – Doença de Huntington  e Esclerose Lateral Amiotrófica (de Lago and Fernandez-Ruiz, 2007; Iuvone et al., 2009), Esclerose Múltipla (Lakhan and Rowland, 2009) e mesmo nas Perturbações do Foro Psicótico (Leweke et al., 2016).

Toxicidade e Perfil de Segurança

Nos vários estudos realizados com CBD, este foi muito bem tolerado pelos doentes e voluntários controlo. Não foram detectados sinais de toxicidade ou efeitos secundários sérios em qualquer um dos grupos.

Os múltiplos pequenos estudos de segurança realizados em humanos com CBD, tanto controlados com placebo como abertos, demonstraram que é bem tolerado num elevado leque de dosagens. Não ocorreram efeitos secundários significativos a nível do Sistema Nervoso Central, sinais vitais ou humor tanto na administração aguda como na administração crónica. Estes estudos foram realizados com dosagens até 1500 mg /dia (PO) ou 30 mg (EV)

Efeito Psicotrópico, Habituação e Dependência

O CBD exerce uma série de efeitos fisiológicos que podem ser utilizados de forma terapêutica e está desprovido de efeito psicoactivo e potencial de abuso ou dependência. 

A ausência de afinidade para os receptores CB1 e CB2 explicam este fenómeno. O efeito fisiológico é desencadeado através da modulação alostérica do receptor CB1 como já descrito.

Posologia

A Posologia recomendada na maior parte dos estudos situa-se no intervalo de 8 a 16 mg/dia repartidos em duas tomas.

As gotas são doseadas a 2 a 4 mg consoante o grau da tintura (5% ou 10% respectivamente). Assim preconizam-se 1 a 3 gotas de manhã e à noite da tintura a 5% (2-6 mg x 2 dia) e 1 a 2 gotas da tintura a 10 % (4-8 mg x 2 dia).

Comparação com os Tratamentos Tradicionais

(efeitos secundários e toxicidade)

O Canabidiol apresenta uma toxicidade mais baixa do que os muitos medicamentos como sejam os AINE´s, as BZD´s, os Opiáceos e os Corticosteróides.

O grau de tolerabilidade, ausência de dependência, ausência de efeito psicotrópico ou de lesões hepáticas e renais conferem ao CBD um maior perfil de segurança do que os tratamentos tradicionalmente utilizados em doenças que cursam com dor, inflamação, náuseas ou espasticidade.

 

THC (Δ9-Tetrahidrocanabinol (Δ9-THC))

THC Molecular Structure

O Δ9-THC é a substância associada ao uso recreativo da Canábis. Altera o estado de consciência e causa euforia. Hoje em dia muitos derivados da Canábis contêm uma dose muito baixa deste componente (ou apenas vestígios) justamente para evitar o efeito psicotrópico. O THC deve ser utilizado com a devida cautela e em conjunto com o CBD, uma vez que usados juntos aumentam o efeito terapêutico da Canábis no seu todo. 

Δ9-THC efeitos e doenças em que pode ser utilizado :

  • reduz náuseas e vómitos – útil na quimioterapia
  • alivia a dor
  • estimula o apetite – útil na quimioterapia e tratamento com anti-retrovirais (HIV/SIDA)
  • reduz espasmos musculares – útil na Esclerose Múltipla

Contudo, dado o risco de efeitos secundários do foro psiquiátrico, esta substância (Δ9-THC) deve ser utilizada com cautela pois a segurança é mais reduzida.

O Δ9-THC é o canabinóide com propriedades euforizantes, altera o estado de consciência e é ilegal no nosso país. É a substância que faz com que a Canábis seja usada para intoxicação recreativa. Esta substância apresenta potencial de abuso e do ponto de vista médico não é necessária para obter o efeito terapêutico que se deseja.

O efeito psicoactivo da Canábis deve-se ao facto do Δ9-THC ter um efeito agonista parcial dos receptores CB1 no Sistema Nervoso Central. É este efeito neuroquímico que confere à Canábis o potencial de abuso pela qual foi tornada ilegal. 

O receptor CB1 encontra-se em maior quantidade nas áreas cerebrais que regulam o apetite, memória, extinção do medo, resposta motora e equilíbrio em estruturas como o Hipocampo, os Gânglios da Base, a Amígdala cerebral, o Hipotálamo e o Cerebelo (Mackie, 2006). Este receptor é ainda encontrado no aparelho gastrointestinal, adipócitos, fígado e músculo esquelético. 

Na Canábis, contudo,  encontram-se ainda muitos outros compostos com efeitos medicinais demonstrados como: o Δ9THCA, o CBDA, o THCV, o  Δ8-THC, CBCA, CBC, CBGA e o CBG. Todos estes compostos actualmente são alvo de fervorosa investigação em diversos países desde a Europa aos EUA e Israel.

O CBDA é um percursor do CBD e apresenta efeito: anti-inflamatório e inibe o crescimento de células cancerígenas.

O THCA é um percursor do THC e apresenta efeito indutor do sono, inibe o crescimento de células cancerígenas e reduz espasmos musculares.

O Δ8-THC é eficaz como analgésico. O THCV reduz as convulsões e promove crescimento ósseo. O CBCA é um anti-inflamatório e antifúngico. O CBC inibe o crescimento de células cancerígenas,  promove crescimento ósseo,  é um anti-inflamatório e analgésico. O CBGA  também é um anti-inflamatório e analgésico e apresenta um efeito antibacteriano. O CBG tem efeito indutor do sono, inibe o crescimento de células cancerígenas, promove crescimento ósseo e reduz o crescimento bacteriano.

Os Terpenos são os compostos aromáticos que conferem  aroma característico da planta. Entre estes encontram-se o Humuleno, o Pineno, o Myrceno, o Caryophileno, o Linalool e o Limoneno.

Sabe-se hoje que o Myrceno tem um efeito sedativo, relaxante e aumenta a psicoactividade do Δ9-THC. É ainda um antiséptico, anti-bacteriano, antifúngico e anti-inflamatório. 

O Caryophileno é um antioxidante e pode ser benéfico na insónia, espasmos musculares e na dor.

O Linalool tem um efeito sedativo e relaxante pelo que é útil na insónia, stress, depressão, ansiedade, dor e nas convulsões.

O Pineno tem um efeito broncodilatador e anti-inflamatório pelo que pode ser muito benéfico na Asma.

O Humuleno tem efeito anti-inflamatório e anti-bacteriano, suprime o apetite e é útil na dor.

O Limoneno tem efeito antidepressivo, ansiolítico e reduz o stress. Tem ainda efeito antifúngico e anti-espasmódico.

Os Flavenoides ocorrem em muitas plantas e apresentam diversos efeitos terapêuticos. Assim como os Terpenos, são compostos aromáticos e exercem um vasto leque de acções fisiológicas. Entre estes encontram-se: a Apigenina, o Kaempferol, a Luteonina, a Orientina, a Quercetina e as Canaflavinas. As Canaflavinas apenas ocorrem na Canábis. Os Flavenoides da Canábis têm uma marcada acção anti-inflamatória e antioxidante.

Esta extensa lista de substâncias químicas e de doenças que podem ser tratadas com a Canábis demonstram claramente a sua utilidade clínica. Há experiência de cerca de vinte anos de administração num contexto medicinal. Porque ainda não estamos a dar alívio aos doentes que padecem destas enfermidades ?